“Toda a gente boa”: visitas de Saúde aos navios negreiros no Rio de Janeiro
Resumo
A fiscalização sanitária dos navios negreiros no porto do Rio de Janeiro pode ser conhecida a partir do “Livro de Termos de Visita de Saúde do Senado da Câmara” (códice 50.4.36), custodiado pelo Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. A leitura desses autos, cruzada com as correições da Ouvidoria Geral, com a legislação sanitária joanina, com as guias fiscais da Provedoria-Mor da Saúde e com os óbitos da Freguesia de Santa Rita, sustenta a tese de que a visita de Saúde operava como um ato comercial revestido de linguagem médica: orientava-se para a proteção da cidade e para a comercialidade da carga humana, e era financiada pela taxação do próprio desembarque que inspecionava. O percurso acompanha três deslocamentos interpretativos: da prevenção epidemiológica à gestão do risco; do corpo doente ao corpo simultaneamente fiscal e sanitário; e da repartição sanitária autônoma à rubrica contábil, no desmonte institucional de 1828, quando a Provedoria-Mor da Saúde foi extinta antes do fim legal do tráfico.
Palavras-chave
Visita de Saúde; Tráfico atlântico; Rio de Janeiro
Biografia do Autor
João Carlos Nara Jr.
Doutor em História Comparada (UFRJ), Mestre em Arqueologia (Museu Nacional/UFRJ), Licenciado em História (UniRio) e Arquiteto e Urbanista (UFF). Sua trajetória multidisciplinar integra sólida formação em humanidades e ciências históricas, com ênfase na pesquisa, preservação e gestão do patrimônio cultural brasileiro em âmbito federal, em prol da transformação social. Atua hoje como Superintendente Administrativo e Assessor de Patrimônio Cultural do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ. Com experiência destacada em gestão pública, já exerceu, entre outros cargos, o de Diretor Executivo da Fundação Biblioteca Nacional. Foi Coordenador-geral do Projeto Resgate de documentação histórica Barão do Rio Branco, e participou da Comissão Luso-Brasileira para Salvaguarda e Divulgação do Patrimônio Documental (COLUSO). Sua produção acadêmica abrange temas como o tráfico negreiro para o Rio de Janeiro (o sistema escravagista na freguesia de Santa Rita e no Valongo), Humanidades Digitais, História do Brasil Império e História da espiritualidade cristã. Experimenta soluções inovadoras, tendo interesse por Hodologia (Rotas, Caminhos, Métodos), abordagem 5A (Arquitetura, Arte, Arqueologia, Antropologia, Alquimia dos Saberes) e enfoque OPEN (Objetos, Práticas, Entornos e Narrativas). Participa ativamente de associações científicas e culturais (Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro, Associação Brasileira de Humanidades Digitais, Centro Dom Vital, Academia Marial de Aparecida). É membro benemérito do Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos. História da Cura é seu campo integrador, articulando pesquisa historiográfica, memória coletiva, crítica dos saberes tradicionais, diálogo entre cultura e espiritualidade, cuidado e contemplação.
Referências
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