Nunca não é Carnaval?: geografias e movimentos fanfarrões de ocupação dos espaços públicos centrais do Rio de Janeiro
Resumo
Este texto propõe algumas considerações sobre os processos de carnavalização nos espaços públicos centrais cariocas, tendo como ponto de partida as performances de fanfarras. Apresentamos reflexões baseadas nas alterações dos seus usos e sentidos e estabelecemos diálogos com as relações de memória e topofilia, empreendendo os elementos artísticos como fontes de informação geográfica para tal. Argumentamos que as funções de uma série desses espaços estão sendo atualizadas por essa movimentação que lhes acrescentam camadas festivas e contestatórias. Tais coletivos enfraquecem a ideia da Zona Central como área exclusiva de trabalho ou de lazer e turismo planejados e travam negociações espaciais que dizem de diferentes leituras e desejos de mundo. Assim, propõem uma centralidade urbana que não é geométrica e tampouco cultural somente no sentido de grandes eventos, equipamentos modernos ou construções arquitetônicas: é vivida, atrelada às experiências e sensações que se desenrolam em torno da música.
Palavras-chave
Fanfarras, Arte urbana, Geografia Cultural
Biografia do Autor
Julia Santos Cossermelli de Andrade
Doutora em geografia em co-tutela pela Universidade de São Paulo e pela Université de Paris 1 Panthéon Sorbonne. Professora associada do Instituto de Geografia e ao Programa de Pós-Graduação em Geografia (PPGEO) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
Gabriela Calafate Ferreira
Geógrafa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Mestranda em Geografia Cultural pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia (PPGEO) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) como Bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ).
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