Lugar de Memória, Lugar de Consciência: O Cais do Valongo e o debate sobre a escravidão no espaço público
Resumo
A manutenção de lugares no espaço que evoquem passados sensíveis tem se tornado um fenômeno cada vez mais frequente nas sociedades contemporâneas, que os tomam enquanto pontos de referência de um passado que não se deseja mais repetir. Após o seu desterramento em 2011, o sítio arqueológico do Cais do Valongo tem sido um desses lugares que possibilitam refletir sobre a escravidão e seus desdobramentos. Assim, o objetivo desse artigo é discutir sobre a dimensão de “lugar de consciência” do Cais, evidenciando, a partir do dossiê de sua candidatura à Patrimônio da Humanidade, três objetivos que contribuiriam para a sua visibilização, analisando como eles têm sido desenvolvidos desde então. A discussão proposta está disposta em quatro seções, para além da introdução e considerações finais, nas quais se vislumbram problemáticas desencadeadas a partir da pesquisa em andamento no âmbito do doutoramento.
Palavras-chave
Memória, Patrimônio da Humanidade, Escravidão
Biografia do Autor
Débora Rios
Doutoranda em Memória Social pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (PPGMS/UNIRIO).
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