Rio de Janeiro: território da diplomacia indígena (século XIX)
Resumo
As estratégias indígenas, assim como a emergência de lideranças no cenário colonial e pós-colonial, têm sido uma temática central nos estudos da chamada História Indígena brasileira. Os debates e casos analisados por variados estudiosos nos permitem refletir sobre a atuação dos índios diante de situações desfavoráveis — particularmente, os processos de expropriação de suas terras, seus direitos e a exploração da mão de obra. Nesse movimento, destaca-se o protagonismo de lideranças, especialmente no século XIX, que, em busca por respostas oficiais para a resolução de seus problemas, utilizaram estratégias distintas, tais como: a memória, a resistência, a apropriação da escrita e da retórica dos ‘brancos’, as negociações diplomáticas (incluindo tratados de paz ou pactos para estabelecer e consolidar alianças, processos de mediação diante de uma autoridade, enviando requerimentos, cartas, comitivas de representantes ao palácio do governo regional ou central). Com base em documentação nos arquivos, o artigo aborda a diplomacia como ferramenta política de garantia de direitos, estratégia para denunciar violações e abusos sofridos em suas aldeias/territórios invadidos e usurpados por diferentes atores, em alguns casos com o aval de agentes do governo. Sujeitos de suas próprias histórias, os índios se deslocaram até o centro político (a corte no Rio de Janeiro) para dialogar e negociar pessoalmente com os chefes de Estado a defesa de seus pleitos.
Palavras-chave
Diplomacia, Embaixadores Indígenas, Índios nas cidades
Biografia do Autor
Ana Paula da Silva
Doutora em Memória Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UNIRIO), pesquisadora do Programa de Estudos dos Povos Indígenas da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (PROINDIO/UERJ), Formadora do Saberes Indígenas na Escola (SIE/Guarani-RJ).
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