Política e espaço público no Rio de Janeiro dos anos 1960: em meio às conspirações golpistas, comício em praça pública tornou-se símbolo de radicalização
Resumo
Em 13 de março de 1964, um comício realizado em praça pública, na altura da estação de trem Central do Brasil, no Rio de Janeiro, liderado pelo então presidente João Goulart, ganhou enorme repercussão no campo político, na grande imprensa e na sociedade civil. Era a expressão de um conflito deflagrado com a posse de Goulart, em agosto/setembro de 1961, e acirrado a partir das tentativas de parte do Executivo de viabilizar o trabalhismo como projeto político nacional a partir da força da opinião pública. Num contexto de fortes demandas sociais, crescente politização popular e polarização política e social, o comício da Central explora a construção de novos espaços políticos e ocorre em nome da ampliação democrática. Resgata a dimensão excludente do sistema políticopartidário representativo e os impasses gerados pela intensificação do conflito de classes no Brasil. Entre possibilidades e ameaças geradas pelo acontecimento, o jogo político se redimensiona, e as diversas forças políticas e sociais, internas e externas, reunidas na oposição ao trabalhismo, levam a conspiração golpista à prática da destituição do governo Goulart.
Palavras-chave
Golpe civil-militar, governo João Goulart, esquerdas no Brasil
Biografia do Autor
Nashla Dahás
Doutora em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Professora Substituta do Departamento de História da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
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