A morte hierarquizada: os espaços dos mortos no Rio de Janeiro Colonial (1720-1808)
Resumo
A estrutura social do Brasil colonial apresentava uma aparente rigidez hierárquica, que poderia ser percebida na vida e na morte, quando com base em diversos aspectos – dentre eles, o lugar ocupado na sociedade – os defuntos teriam seus espaços de inumação predeterminados. Os indivíduos de mais poder e prestígio teriam as sepulturas conhecidas como ad sanctos apud ecclesiam – no interior ou entorno dos templos –, e os de categorias consideradas inferiores, seriam inumados em cemitérios ou, em casos mais extremos, abandonados em terrenos baldios, valas etc. No entanto, por se tratar de uma sociedade repleta de complexidades, através da análise de registros de óbitos e testamentos da Freguesia da Sé, no Rio de Janeiro, podemos perceber que a divisão espacial dos mortos não seria tão estática quanto pode parecer a princípio, revelando que a mobilidade social e os contrastes sociais existentes entre os vivos, também refletiriam nos lugares dos mortos.
Palavras-chave
sepultura, morte, hierarquia
Biografia do Autor
Milra Nascimento Bravo
Mestre em História Social pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro/UNIRIO.Professora tutora de Metodologia da Pesquisa Histórica, no Curso Semipresencial de Graduação em História da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro/UNIRIO.
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