Aqueles que querem viver segundo o seu compromisso: permanência e transformação em meio ao conflito entre os sapateiros e a Câmara, Rio de Janeiro, c. 1764-c. 1821
Resumo
O presente artigo busca abordar o conflito entre a Irmandade de S. Crispim e S. Crispiniano e a Câmara do Rio de Janeiro, entre 1764 e 1821. O mesmo girava em torno do comércio ambulante de calçados, algo que a Irmandade buscava proibir. Dentro deste contexto, procura-se abordar a referida Irmandade como uma irmandade de ofício. Por outro lado, destaca-se o período analisado, chamando atenção para as continuidades e descontinuidades que o mesmo comportava, enfatizando a permanência dos valores e códigos de Antigo Regime, mas também as importantes transformações que se encontravam em curso no âmbito do Império português e da cidade do Rio de Janeiro, fossem elas no campo político, administrativo, social, cultural, ou no campo das ideias (iluminismo, liberalismo). Aos confrades sapateiros, restava lutar pela manutenção de uma instituição tradicional, no interior dos mecanismos legais e institucionais que se moldavam a novos tempos.
Palavras-chave
irmandade de ofício, conflito, continuidade e descontinuidade
Biografia do Autor
Mariana Nastari Siqueira
Graduada e licenciada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Mestre em História pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.
Referências
- ABREU, Laurinda Faria dos Santos. Confrarias e irmandades: a santificação do quotidiano. In: SANTOS, Maria Helena Carvalho dos (coord.). VIII Congresso Internacional A Festa. Lisboa: Sociedade Portuguesa de Estudos do Século XVIII, 1992. v. 2, p. 429-440.
- ALENCASTRO, Luiz Felipe de. O trato dos viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
- BICALHO, M. F.; FRAGOSO, J.; GOUVÊA, M. F. (orgs.). O Antigo Regime nos Trópicos: a dinâmica imperial portuguesa (séculos XVI-XVIII). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.
- BOSCHI, Caio César. Os leigos e o poder: irmandades leigas e política colonizadora em Minas Gerais. São Paulo: Ática, 1986.
- BOXER, Charles R. O império marítimo português (1415-1825). São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
- CAETANO, Marcelo. A antiga organização dos mesteres da cidade de Lisboa. In: LANGHANS, F. P. As corporações dos ofícios mecânicos: subsídios para a sua história. Lisboa: Imprensa Nacional de Lisboa, 1943.
- CARDIM, Pedro. Administração e governo: uma reflexão sobre o vocabulário do Antigo Regime. In: BICALHO, M. F.; FERLINI, V. L. Modos de governar: ideias e práticas políticas no império português, séculos XVI ao XIX. São Paulo: Alameda, 2005, p. 45-68.
- CAVALCANTI, Nireu. O Rio de Janeiro setecentista: a vida e a construção da cidade, da invasão francesa até a chegada da Corte. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004.
- COSTA, Wilma Peres. O Império do Brasil: dimensões de um enigma. Almanack Braziliense, Universidade de São Paulo, v. 1, n. 1, p. 1-17, 2006. DOI: https://doi.org/10.11606/issn.1808-8139.v0i1p27-43
- FALCI, Miridan Britto. A escravidão no tempo de D. João. In: IPANEMA, R. M. de. D. João e a cidade do Rio de Janeiro: 1808-2008. Rio de Janeiro: IHGB, 2008, p. 325-344.
- FLEXOR, Maria Helena Ochi. Oficiais mecânicos na cidade do Salvador. Salvador: Prefeitura Municipal do Salvador, Departamento de Cultura, Museu da Cidade, 1974.
- FLORENTINO, Manolo. Em costas negras: uma história do tráfico de escravos entre a África e o Rio de Janeiro, séculos XVIII e XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
- FRAGOSO, João. O arcaísmo como projeto: mercado atlântico, sociedade agrária e elite mercantil em uma economia colonial tardia, Rio de Janeiro, c. 1790-c. 1840. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.
- GARRIGA, Carlos. Orden jurídico y poder político en el Antiguo Régimen. Istor, IV (16), p. 13-44, 2004. Disponível em: [www.istor.cide.edu/istor.html](http://www.istor.cide.edu/istor.html). Acesso em: 17 out. 2010.
- GUEDES, Roberto. Ofícios mecânicos e mobilidade social: Rio de Janeiro e São Paulo (sécs. XVII-XIX). Topoi: Revista de História, Rio de Janeiro: Programa de Pós-Graduação em História Social da UFRJ/Letras, v. 7, n. 13, jul.-dez. 2006, p. 379-423. DOI: https://doi.org/10.1590/2237-101X007013004
- HESPANHA, A. M.; XAVIER, A. B. A representação da sociedade e do poder. In: HESPANHA, António Manuel (coord.); MATTOSO, J. (dir.). História de Portugal: o Antigo Regime (1620-1807). Lisboa: Círculo de Leitores, 1993. v. IV, p. 120-155.
- IPANEMA, Rogéria Moreira de (org.). D. João e a cidade do Rio de Janeiro (1808-2008). Rio de Janeiro: Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro, 2008.
- KARASCH, Mary. A vida dos escravos no Rio de Janeiro (1808-1850). São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
- LANGHANS, F. P. As corporações dos ofícios mecânicos: subsídios para a sua história. Lisboa: Imprensa Nacional de Lisboa, 1943.
- LIMA, Carlos Alberto Medeiros. Pequenos patriarcas: pequena produção e comércio miúdo, domicílio e aliança na cidade do Rio de Janeiro (1786-1844). Tese (Doutorado em História) – UFRJ/IFCS, Rio de Janeiro, 1997.
- MARAVALL, José Antonio. Poder, honor y elites en el siglo XVII. Madrid: Siglo XXI, 1989.
- MARTINS, Mônica de Souza Nunes. Entre a cruz e o capital: as corporações de ofícios após a chegada da família real (1808-1824). Rio de Janeiro: Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, Garamond, 2008.
- MESQUITA, António. Os sapateiros no contexto económico, político e religioso do Reino. São João da Madeira: Câmara Municipal de São João da Madeira, 1996.
- PRIORE, Mary Del. Cotidiano, permanências e rupturas no Rio de Janeiro à época da chegada da família real. In: IPANEMA, R. M. de. D. João e a cidade do Rio de Janeiro: 1808-2008. Rio de Janeiro: IHGB, 2008, p. 67-80.
- SANTOS, Beatriz Catão Cruz. O corpo de Deus na América: a festa de Corpus Christi nas cidades da América Portuguesa, século XVIII. São Paulo: Annablume, 2005.
- SANTOS, Beatriz Catão Cruz. Cantos comuns: ofícios, irmandades e vilancicos no Rio de Janeiro do século XVIII. Projeto de pesquisa apresentado à Fundação Biblioteca Nacional. Janeiro de 2007.
- SANTOS, Beatriz Catão Cruz. The Feast of Corpus Christi: artisans, crafts and skilled trades in eighteenth-century Rio de Janeiro. The Americas, out. 2008, p. 193-216. DOI: https://doi.org/10.1353/tam.0.0035
- SANTOS, Beatriz Catão Cruz. Irmandades, oficiais mecânicos e cidadania no Rio de Janeiro do século XVIII. Varia História, v. 26, n. 43, p. 131-153, jun. 2010. DOI: https://doi.org/10.1590/S0104-87752010000100008
- SANTOS, Beatriz Catão Cruz. Vidas quase anônimas: os oficiais mecânicos, as irmandades de ofício e o Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. Revista do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, n. 6, p. 39-59, 2012. DOI: https://doi.org/10.65625/yscvzp44
- SIQUEIRA, Mariana Nastari. Entre o signo da mudança e a força da tradição: o conflito entre a Irmandade de São Crispim e São Crispiniano dos Sapateiros e a Câmara, Rio de Janeiro, c. 1764-c. 1821. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, 2011.
- SCHULTZ, Kirsten. Versalhes tropical: império, monarquia e a corte real portuguesa no Rio de Janeiro, 1808-1821. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.
- SCHWARTZ, Stuart B. Segredos internos: engenhos e escravos na sociedade colonial, 1550-1835. São Paulo: Companhia das Letras, 1988.
- VIANA, Larissa. O idioma da mestiçagem: as irmandades de pardos na América Portuguesa. Campinas: Editora da Unicamp, 2007.